A Avenida Paralela sempre foi um cartão-postal da mobilidade complicada em Salvador. Ligar a região do aeroporto ao centro em horário de pico era sinônimo de engarrafamento longo, ônibus lotado e motorista particular rezando para não perder compromisso. Em maio, um trecho de 4,2 quilômetros ganhou corredor exclusivo para ônibus — e um mês depois, o Rota Urbana foi ouvir quem atravessa essa via todo dia.
A obra faz parte de um pacote maior de reorganização do transporte coletivo na capital baiana, com estações de embarque elevadas em alguns pontos e sinalização inteligente prometida para a segunda etapa. O que já está funcionando é a faixa exclusiva pintada em vermelho, separada por tachões e monitorada por agentes de trânsito nos primeiros dias de operação.
Passageiros: menos tempo, mesma lotação
Embarcamos em três linhas diferentes que usam o corredor — uma vinda de Lauro de Freitas, outra da Subúrbio Ferroviária e uma radial que segue em direção ao Iguatemi. A constatação mais comum entre os 30 passageiros entrevistados: o trajeto ficou entre 12 e 18 minutos mais rápido no horário de pico. "Antes eu saía de casa às seis para chegar às oito. Agora saio às seis e vinte", disse André, técnico de enfermagem que mora em Piatã.
A lotação, porém, não mudou. Os ônibus continuam cheios entre 7h e 9h, e passageiros em pé são a regra nas linhas mais demandadas. O ganho foi de velocidade, não de capacidade. Representantes de sindicato de motoristas confirmam que a frota atual é a mesma de antes da obra — reforço de veículos depende de licitação em andamento.
Comerciantes e moradores do entorno
Na Paralela, o comércio de rua convive com concessionárias, shoppings e postos de gasolina. A redução de faixas para carros particulares gerou efeito colateral: menos vagas de estacionamento em alguns trechos e acesso mais lento a estabelecimentos que dependem de cliente de carro.
A gente apoia ônibus rápido, mas ninguém sentou com o comércio local antes de fechar a faixa. Fim de semana o movimento caiu visivelmente.
Essa frase é de Sônia, que tem loja de material de construção há 15 anos em um galpão lateral à avenida. Ela não é contra transporte público — usa ônibus ela mesma — mas reclama da falta de estudo de impacto econômico no entorno. Outros comerciantes relatam adaptação: clientes passaram a marcar horário fora do pico ou usar entrega.
Moradores de condomínios na Paralela têm visão mais favorável. Para quem pega ônibus na porta, a diferença é concreta. "Meu filho estuda no centro e a viagem dele encurtou. Isso vale ouro", contou Dona Márcia, aposentada.
Trânsito misto e fiscalização
Nos primeiros dias, a invasão da faixa exclusiva por carros particulares foi frequente. Ações de educação e multas reduziram o problema, mas em observação de duas manhãs seguidas ainda registramos sete infrações em uma hora — principalmente motos e veículos de entrega. A Prefeitura informou que câmeras de monitoramento serão instaladas em junho.
Para quem dirige, o desvio é usar vias paralelas ou antecipar a saída. Waze e apps similares já recalculam rotas, mas moradores de bairros adjacentes relatam aumento de trânsito local — efeito esperado em obras desse tipo, mas que precisa de acompanhamento para não transferir o problema para ruas residenciais.
O que vem pela frente
A segunda fase do corredor deve estender a faixa exclusiva em mais 2 quilômetros em direção ao aeroporto, com integração a terminais de integração. Há promessa de painéis com previsão de chegada em tempo real, recurso que passageiros em São Paulo e Recife já conhecem e que em Salvador ainda é novidade.
Um mês é pouco para veredicto definitivo, mas o balanço preliminar é claro: quem depende de ônibus na Paralela ganhou tempo; quem depende de carro ou de cliente de carro sentiu atrito. O desafio da prefeitura é manter o ganho de velocidade, aumentar capacidade e dialogar com o comércio local — sem tratar um grupo como custo invisível do outro.
O Rota Urbana continuará acompanhando a obra. Relatos de Salvador podem ser enviados para [email protected].