A orla da Zona Sul do Rio sempre teve ciclistas — de amanhecer, quando grupos de treino cruzam a ciclovia de Ipanema, até o fim da tarde, quando entregadores de restaurante disputam espaço com turistas de bicicleta alugada. Em maio, a Prefeitura entregou 2,8 quilômetros de faixa nova entre Posto 9 e o Jardim de Alah, conectando trechos que antes terminavam de forma abrupta. Três semanas depois, o Rota Urbana foi medir quem usa de fato e onde ainda dói.
A obra faz parte do plano de expansão cicloviária da gestão municipal, que promete 40 quilômetros adicionais até o fim de 2026. Na Zona Sul, o argumento oficial é integrar lazer e deslocamento: morador que vai ao trabalho de bike não deveria precisar descer para a calçada ou invadir a faixa de ônibus. Na prática, a recepção depende de onde você embarca.
Contagem de fluxo: mais gente, mesmo perfil
Em observação de cinco dias úteis, entre 7h e 9h e entre 17h e 19h, registramos aumento de 34% no volume de ciclistas no trecho Ipanema–Leblon em relação ao mesmo período de abril, antes da inauguração. A amostra foi feita em três pontos: Rua Vinícius de Moraes, Avenida Ataulfo de Paiva e entroncamento com a ciclovia da Lagoa.
O perfil, porém, mudou pouco. Continuam predominando homens entre 25 e 45 anos, muitos de uniforme de entrega ou mochila de notebook. Mulheres representaram 18% do fluxo na manhã e 22% no fim da tarde — números similares aos de levantamentos anteriores da CicloRio. A novidade visível é a redução de ciclistas na calçada nesses trechos: a faixa contínua parece ter absorvido parte do tráfego que antes contornava obstáculos pela passeio.
Paulo, designer que mora em Ipanema e vai três vezes por semana de bike ao escritório na Glória, resume: "Antes eu cortava pela Lagoa ou descia na mão porque a faixa parava. Agora dá para manter ritmo. Não é perfeito, mas é outra coisa."
Cruzamentos: onde a ciclovia encontra o carro
Os pontos críticos aparecem onde a ciclovia cruza ruas transversais com semáforo. Na Rua Maria Quitéria, motoristas que dobram à direita frequentemente invadem a faixa sem ceder passagem. Em duas horas de observação, contabilizamos 23 situações de conflito — desde freada brusca até xingamento. Agentes de trânsito estiveram presentes apenas em um dos cinco dias.
A faixa ficou linda no papel. No cruzamento, o motorista olha para o celular e avança. Sinalização sozinha não segura ninguém.
A frase é de Renata, professora que passou a pedalar com o filho de dez anos aos finais de semana. Ela evita o horário de pico e escolhe trechos com menor volume de carros. Representantes de associação de ciclistas pedem reforço de fiscalização e redução de velocidade nas transversais — medida que a Prefeitura diz estar "em estudo".
Outro problema recorrente: carros estacionados sobre a faixa. Em Ataulfo de Paiva, entregas rápidas e embarque de passageiros bloqueiam o corredor por minutos. Ciclistas desviam para o tráfego ou para a calçada, anulando parte do investimento. Comerciantes argumentam que não há vagas suficientes na rua; moradores respondem que estacionamento irregular já era problema antes da ciclovia.
Moradores divididos
Em conversas com síndicos e moradores de edifícios na orla, a divisão é clara. Quem usa bike ou caminha com frequência apoia a faixa. Quem depende de carro para sair de garagem reclama de redução de faixa automotiva e aumento de tempo para cruzar a orla em horário de pico.
O comércio local tem percepção mista. Donos de bicicletarias registram aluguel e vendas estáveis; bares e quiosques não notaram impacto direto no faturamento em três semanas — período curto para conclusões definitivas. Já motoristas de app relatam viagens mais lentas em trechos onde uma faixa foi convertida: "Cliente reclama, eu reclamo, ninguém ganha", disse Marcos, parceiro de aplicativo que trabalha na região há quatro anos.
Manutenção e continuidade
Ciclistas experientes apontam detalhes que visitantes não veem: trecho com asfalto desnivelado próximo ao Jardim de Alah, pintura já desgastada em cruzamento de alta frequência, falta de iluminação dedicada em um quarteirão. A Prefeitura informou que equipes de manutenção passam semanalmente e que a segunda fase inclui sinalização horizontal reforçada.
A continuidade com a ciclovia da Lagoa — conexão desejada há anos — ainda não tem data. Sem ela, quem vem de Copacabana ou Botafogo continua enfrentando trecho compartilhado com pedestres e carros. Integração modal com estações de BRT e metrô também fica aquém: não há bicicletário novo nos entornos dos trechos inaugurados.
O que os números não mostram
Estatísticas de fluxo não capturam quem deixou de pedalar por medo. Conversamos com seis pessoas que reduziram uso de bicicleta na Zona Sul nos últimos dois anos; quatro citaram sensação de insegurança em cruzamentos, não falta de faixa. Duas mencionaram assaltos a ciclistas em trechos adjacentes — problema de segurança pública que infraestrutura sozinha não resolve.
Para entregadores, a ciclovia nova é ferramenta de trabalho. Raimundo, que leva refeições de bike em raio de oito quilômetros, calcula que economiza cerca de quinze minutos por turno nos trechos conectados. "Tempo é corrida. Faixa boa é dinheiro no bolso", resume.
Próximos passos
A expansão prevista inclui ligação com o bairro de São Conrado e estudo para faixa elevada em trecho de alta declividade. Audiência pública está marcada para julho. Grupos de ciclistas preparam propostas de fiscalização e campanha educativa para motoristas — reivindicação que se repete em outras capitais brasileiras sempre que nova ciclovia é pintada.
Três semanas após a inauguração, o saldo na Zona Sul é de uso real e crescente, com ressalvas graves em cruzamentos e estacionamento. A ciclovia cumpre parte da promessa de continuidade; falta garantir que quem pedala chegue inteiro ao destino. O Rota Urbana continuará acompanhando a obra e publicará atualização após a audiência pública.
Relatos sobre ciclovias no Rio podem ser enviados para [email protected].